Notas & Comentários – 9-9-2022

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Estados Unidos e França – uma relação íntima: Antes de falarmos sobre Eiffel e a Estátua da Liberdade, é interessante entender a história subjacente. A França tem uma ligação histórica íntima com os Estados Unidos: foi a parteira – a sage-femme – que ajudou a nação americana a nascer. O conde de Rochambeau comandou as tropas francesas que foram lutar ao lado dos americanos, pela independência, contra os ingleses. Em 1781, os franceses foram o fator decisivo na Batalha de Yorktown em que Washington contava com 5.500 homens e 60 canhões, e Rochambeau, com 9.500 homens e 90 canhões. A França perdeu 60 homens e 194 ficaram feridos; no lado americano, houve 28 mortos e 107 feridos. Ou seja, no dia D, na hora H, a França ganhou a independência para os EUA. Tanto que os ingleses, derrotados, tentaram se render a Rochambeau, que não aceitou o gesto inglês, e apontou Washington…

O Marquês de Lafayette estava na campanha da Independência americana, onde mantinha grande proximidade com Washington (vide Citizens: A Chronicle of the French Revolution. Vintage, 1990, de Simon Schama).

No Cemitério de Picpus, um dos dois cemitérios privados de Paris (o outro é o dos judeus portugueses), repousam, em duas fossas comuns, os corpos de 1.306 guilhotinados na fase do Grande Terror da Revolução Francesa, entre os quais o de Adrienne de Noialles, Marquesa de Lafayette, esposa do Marquês de Lafayette.

Ao contrário de sua esposa, Lafaytte sobreviveu à Revolução Francesa, falecendo em 20 de maio de 1834. Mas foi também inumado no Cimetière de Picpus. A Embaixada americana cuida do túmulo de Lafayette, o que se percebe (como eu percebi quando visitei o Cemitério com um filho, anos atrás): há uma bandeira americana lá, e tudo é limpo e bem mantido.

Estados Unidos e França – a Estátua da Liberdade: Quando os americanos chegaram à França em 1917, como aliados na 1a Guerra Mundial, o general John J. Pershing visitou o túmulo de Lafayette e mandou seu ajudante, o Coronel Charles E. Stanton proclamar, de forma dramática e retumbante: “Lafayette, we are here”. Era o gesto dos americanos, retribuindo o dos franceses quase 150 anos antes.

A Estátua da Liberdade: La Liberté Éclairant le Monde, foi concebida pelo escultor francês Frédéric Auguste Bartholdi, para comemorar o centenário da Independência dos EUA. Porém, em 1876, apenas a tocha e a cabeça da estátua estavam prontas. Mas havia um problema estrutural: como sustentar uma estátua de 46m de altura no porto de Nova Iorque, sujeita a ventos e
trovoadas? Entra Eiffel.
Gustave Eiffel projetou a estrutura interna do monumento, o esqueleto de sustentação da estátua, conforme a figura abaixo.

A estátua se sustenta lá, gloriosa, até hoje. As pontes e a Estátua da Liberdade deram enorme reputação a Gustave Eiffel, a necessária para vencer a licitação da Torre que se chamaria Eiffel.

O nome de Eiffel: O nome de família de Eiffel era Bönickhausen. O Eiffel foi acrescentado por um ancestral de Gustave, originário da localidade de Eiffel, na Alemanha. Era mais fácil para um francês pronunciar. Mas Gustave tinha problemas com seu nome de família, ‘pois uma consonância alemã podia pôr em dúvida sua nacionalidade francesa, o que o prejudicava nos planos individual e comercial’, principalmente depois da Guerra Franco-prussiana de 1870-71. Com efeito, um empregado que fora demitido por Gustave o acusou de ser um espião a serviço de Bismarck…Gustave Eiffel conseguiu mudar seu nome: em vez de Gustave ‘Bönickhausen, dit Eiffel’, ficou apenas Gustave Eiffel.

Napoleão e os ‘Prénoms’: Em 1o de abril de 1803, Napoleão Bonaparte legislou sobre os nomes de batismo (prénoms) aceitáveis na França.

Antes da Revolução Francesa, as pessoas geralmente escolhiam o nome que queriam, principalmente o do santo do dia, ou o do santo de devoção dos pais. Durante o período revolucionário, começaram a pôr nomes de políticos… Porém, alguns desses políticos – descobria-se depois – não eram bem aquilo que se pensava…

Napoleão (nada religioso, embora) achava melhor que usassem nomes franceses, de santos (pois não haveria surpresas), ou nomes conhecidos da história clássica ou do Antigo Testamento. A partir daí ninguém seria registrado como Marat, ou Gustav ou Mohamed, p. ex. Essa lei de Napoleão vigeu até os anos 1960, sendo definitivamente revogada apenas em 1993.

Wellington chamava Napoleão de “Buonaparte”, para frisar sua ancestralidade italiana, não-francesa…

É por isso, por essa lei de Napoleão, que Platini, de família italiana, é Michel; que Sarkozy, de família húngara, é Nicolas; que Yves Montand não era Ivo; que Aznavour era Charles. Aliás, o “Montand” de Ivo, digo, de Yves surgiu porque sua mãe (família italiana), quando o mandava subir ao apartamento, gritava: “monta!”.

O Pavilhão do Brasil na Exposição de 1889: A Exposição Universal de Paris, a da Torre Eiffel, terminou 15 dias antes da Proclamação da República no Brasil. A xícara em que foi servido o cafezinho brasileiro portava, pois, o brasão imperial (possuímos duas delas em nosso escritório). Redes de dormir – essa delícia que os franceses não tinham o prazer de usar – eram exibidas no Pavilhão pátrio. Havia uma vitrine de Minas, uma vitrine do tabaco, uma vitrine do mate, um pavilhão do Amazonas. Na imagem abaixo vê-se, na parte central inferior, o brasão do Império do Brasil. Na última imagem, como não podia deixar de ser, perfila o pessoal responsável pelo cafezinho, com Porfírio da Costa, diretor da degustação de café, e sua equipe. Podia não ser muita coisa, mas era gostosa.