Caros,
O Livro, tal como concebido por Gutemberg, constituiu a principal forma de adquirir e transmitir o conhecimento durante 400 anos, até que tudo foi alterado pela invenção do telégrafo e da fotografia. O telégrafo trouxe a notícia irrelevante; a fotografia começou a tornar a imagem mais relevante do que a idéia.
Nestas Notas, vamos entrar no século XX, quando fomos submergidos pelo Rádio, a TV e a Internet. E vamos começar com a visão de dois ícones da literatura, Georges Orwell e Aldous Huxley. Eles temeram a mesma coisa; imaginaram, ambos brilhantemente, como nossa vida e nossa liberdade poderiam ser controladas. Ambos temiam que o acesso à informação, ao conhecimento, nos seria negado, a partir de forças diferentes. Um deles errou.
A análise que aqui fazemos advém de um livro genial escrito por Neil Postman em 1985, na Era da TV, mas antes da Internet: Amusing Ourselves to Death (Penguin Books).
Orwell temia aqueles que proibiriam os livros. Já Huxley temia que não houvesse motivo para proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse ler um. Orwell temia aqueles que nos privariam de informações. Huxley temia aqueles que nos dariam tanto do que queríamos que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley temia que a verdade fosse afogada em um mar de irrelevância. Orwell temia que nos tornássemos uma cultura cativa. Huxley temia que nos tornássemos uma cultura trivial.
No livro “1984”, de Orwell, as pessoas são controladas pela dor que lhes é infligida. Em Admirável Mundo Novo, elas são controladas infligindo prazer. Em suma, Orwell temia que o que odiamos nos arruinasse. Huxley temia que o que amamos iria nos arruinar.
Huxley acertou em cheio. E, quando Postman fez sua análise antológica, ainda estávamos longe da avalanche da Internet…
Aldous Huxley e o perigo do que amamos: Após discutirmos a extraordinária obra de Gutenberg, mencionamos como se manteve inalterada, durante 400 anos, a forma de adquirir e transmitir o conhecimento – com o livro impresso. Tudo mudou com o telégrafo e a fotografia.
Vamos agora entrar no século XX, com o Rádio, a TV e a Internet, usando o pensamento de dois ícones da literatura, Georges Orwell e Aldous Huxley. Ambos brilhantemente imaginaram como perderíamos o controle da nossa vida, e nossa liberdade. Um errou.
Orwell e Huxley: Um escreveu “1984”; o outro, Brave New World (Admirável Mundo Novo). Dois livros que previam como a humanidade seria oprimida, mas de ângulos opostos.
Georges Orwell e Aldous Huxley foram dois famosos intelectuais do século XX. Orwell tinha um idealismo socialista, mas se tornou anti-stalinista, diante do que presenciou na Guerra Civil Espanhola. Huxley tinha pendores de misticismo oriental; e, com seus problemas de vista, às vezes precisava de uma lupa para ler.
Perto de morrer, Orwell pediu para ser velado conforme os costumes da Igreja Anglicana. Huxley, horas antes de morrer, teria pedido à sua esposa (por escrito, pois já não conseguia falar, por causa da doença) que lhe ministrasse uma dose de LSD, não porque sentisse qualquer dor insuportável, mas apenas para a ‘transição’; ela aplicou duas. (A bem da verdade, Huxley não era um viciado, e desaprovava a explosão do uso de drogas dos anos 60; ele experimentara drogas para saber como eram. Aliás, há quem duvide que ele tenha pedido a dose de LSD à beira da morte, como relatou sua esposa). Aldous Huxley (e C. S. Lewis) morreu no mesmo dia em que o Presidente Kennedy foi assassinado, razão pela qual sua morte (e a de Lewis) não recebeu a devida atenção.
Quem dissecou, em uma análise espetacular, o pensamento desses dois grandes intelectuais foi Neil Postman, professor da NY University. É com base no brilho dessa análise que tentaremos jogar alguma luz sobre os mistérios do conhecimento em nossos tempos.
1984 chegou e… passou: Orwell errou. Em 1985, parecia que podíamos comemorar. De fato, os presságios para o ano de 1984, na sombria previsão do livro de Orwell, não tinham se concretizado, a democracia liberal tinha vencido. Todos poderiam respirar em paz: os países ocidentais democráticos não se tornaram Estados Totalitários, não controlavam todo tipo de informação recebida pelos seus cidadãos, nem tampouco vigiavam cada passo deles. Estávamos salvos. Estávamos?
A outra visão, a de Huxley: Não, ninguém está a salvo, mas por razões inteiramente opostas àquelas aduzidas por Orwell. As coisas nunca são tão simples assim. Existe uma outra narrativa, menos conhecida, mas não menos impactante, e aterrorizante: a de Huxley em Admirável Mundo Novo. Não é preciso que nenhum Big Brother prive as pessoas de sua autonomia, maturidade e história: as pessoas, de certa maneira, vão amar sua opressão, adorar as tecnologias que desfazem sua capacidade de pensar. Como assim?
A diferença entre Orwell e Huxley (1): Orwell temia aqueles que proibiriam os livros. Já Huxley temia que não houvesse motivo para proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse ler um. Orwell temia aqueles que nos privariam de informações. Huxley temia aqueles que nos dariam tanto do que queríamos que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley temia que a verdade fosse afogada em um mar de irrelevância. Orwell temia que nos tornássemos uma cultura cativa. Huxley temia que nos tornássemos uma cultura trivial.
A diferença entre Orwell e Huxley (2): Como Huxley observou em Brave New World Revisited, aqueles que estão sempre em alerta para se opor à tirania “não levaram em conta o apetite quase infinito do homem por distrações”. No livro “1984”, as pessoas são controladas pela dor que lhes é infligida. Em Admirável Mundo Novo, elas são controladas infligindo prazer. Em suma, Orwell temia que o que odiamos nos arruinasse. Huxley temia que o que amamos iria nos arruinar. Huxley acertou em cheio.
A obra de Neil Postman: Quem escreveu a genial comparação que trazemos acima foi Neil Postman (1931-2003). Seu intensamente brilhante livro Amusing Ourselves to Death (Penguin Books) analisa criticamente o papel da televisão na cultura americana, vendo-a como uma ferramenta definidora de uma nova cultura que suplantou a que existia antes da invenção da TV. Nas Notas das próximas semanas, seguiremos com suas análises que tão bem nos fazem compreender o mundo em que estamos. Ele fala da TV nos Estados Unidos em 1985, mas vê e antevê o mundo, a Internet, hoje…