Notas & Comentários – 23-05-2025

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As mulheres da família Noailles: Eram três, mãe, filha e neta. A Duquesa de Noailles, Catherine de Condé-Brissac, estava com 70 anos; seu marido morrera há pouco. Sua filha era a Duquesa d’Ayen, e sua neta, a viscondessa de Noailles: os maridos das duas fugiram da França – da Revolução Francesa e… da guilhotina.
 Essas três mulheres e mais três criancinhas (a mais velha tinha 11 anos) ficaram na França, pois nunca ninguém imaginou que a Revolução poderia maltratar, muito menos matar mulheres.

À esquerda, imagem de Catherine de Cossé-Brissac, Duquesa de Noailles, com 70 anos: tal como era no tempo em que foi guilhotinada. Para que matar uma senhora de 70 anos que não fez nada contra a Revolução?

As três gerações Noailles se trancaram numa das mansões da família em Paris. Esperavam viver aí bastante discretamente para não atrair a atenção de ninguém. Não saíam para nada. Faziam caridade, quando possível. Não queriam dar a mais longínqua impressão de oposição ao regime revolucionário.

Elas não fizeram nada contra o regime, mas havia um problema: eram nobres, nasceram na Nobreza, e isso as tornava suspeitas.

 

A Lei dos Suspeitos: Sim, no dia 17 de setembro de 1793 fora promulgada a Lei dos Suspeitos. E todos que tinham a ver com o Antigo Regime e com a Nobreza foram presos. As três Noailles foram presas. Inicialmente, em domicílio, pelo estado de saúde da velha duquesa. Mas tinham de pagar diárias e refeições dos dois guardas que as vigiavam, dois sans-culottes.

Vamos guardar bem o nome das três mulheres:

 – Catherine de Cossé-Brissac, Duquesa de Noailles, 70 anos;

– Henriette Anne Louise d’Anguesseau, Duquesa d’Ayen, filha de Catherine ;

– Anne Jeanne Baptiste Louise de Noailles, Viscondessa de Noailles, filha de Henriette, neta de Catherine.

Em junho de 1794, com a Revolução já na fase do Grande Terror, imperava uma lei, obra de Robespierre, suprimindo todas as aparências, até então observadas, de justiça: nada de inquérito prévio, de interrogatório, de testemunhas, de advogado de defesa… Agora, bastava constatar a identidade, e havia uma só pena, a morte.

As senhoras Noailles, na prisão (o Palácio de Luxemburgo se tornara prisão), nada faziam, nem diziam nada que pudesse atrair a atenção sobre elas. Mantinham-se à parte, e era difícil para os delatores (moutons) entrarem em conversação com elas. Um dia, porém, jogam ovos podres na cela e as três mulheres reclamam. Reclamam? São acusadas… Em 3 Thermidor (21 de julho de 1794) chega a ordem de transferência para a Conciergerie, para julgamento, i.e., para a condenação certa à guilhotina…

 

Conciergerie: Quando foram buscá-la, a Duquesa d’Ayen lia a Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis. Ela escreveu rapidamente uma mensagem para marcar o lugar onde parara a leitura. A mensagem (vide imagem abaixo) dizia: “Meus filhos, coragem e oração” (Mes enfants, courage et prière). Mãe é mãe. Beijou o livro e o deixou com a Duquesa de Orleans (bisavó do Conde d’Eu, marido da nossa Princesa Isabel), reclusa a alguns passos dela. A queda de Robespierre salvou a Duquesa de Orleans, que cumpriu esse último pedido: o livro e a frase dramática continuavam sendo cuidadosamente guardados pelos descendentes da Duquesa d’Ayen, como relata G. Lenotre em seu belo livro Le Jardin de Picpus, em que conta a história da fase do Grande Terror da Revolução Francesa, e que usei como base destas Notas.

Era tarde, quando as três mulheres chegaram na Conciergerie. Os fornecedores não podiam mais entrar e vender alimentação à noite; as outras prisioneiras ofereceram comida e água de groselha para matar a sede. Uma presa cedeu sua cama – ou o que passava por uma cama – para a duquesa de Noailles; ofereceram um colchão para a duquesa d’Ayen; e tentaram improvisar algo para a viscondessa de Noailles, que recusa, com aquela frase célebre:

– “Não vale a pena dormir tão perto da eternidade”.

Que frase grandiosa. Melhor se preparar para o grande momento de se encontrar com Deus.