Caros,
Talleyrand é o arquétipo de maus políticos e maus homens públicos. Ontem e hoje.
Pela mentira, pela dissimulação, pela amoralidade e pelo cinismo, Talleyrand atravessou muitos regimes sucessivos, inimigos cada um do regime anterior, sempre no topo, sempre solícito e promovendo o novo regime, para o qual conspirara e contra o qual iria conspirar oportunamente.
Como permanecer no topo, sempre**?** Pelo método de Talleyrand: mentindo e traindo. Ele traiu tudo e a todos, começando pela fé que pareceu professar, e a Igreja a que deveria servir: foi ele quem propôs que a Revolução Francesa tomasse os bens da Igreja para financiar o tremendo déficit do Estado.
Talleyrand ocupou cargos de alto poder político durante toda sua vida e em todos os regimes que se foram sucedendo na França: Deputado dos Estados Gerais sob o Antigo Regime (representando o Clero, que ele traiu); Presidente da Assembleia Nacional e Embaixador durante a Revolução Francesa (quando deu início a seus atos de imensa corrupção); ajudou a derrubar o Rei (sendo dele servidor) e aderiu à República (a quem passou a servir, para trair mais tarde); votou a morte do seu senhor, sua última traição ao seu Rei Luís XVI; Ministro das Relações Exteriores no Diretório (que ele traiu em prol do Consulado), e no Consulado (que ele traiu em prol do Império) e sob o Império (que ele traiu em prol do novo Rei); Presidente do Governo Provisório, após a queda de Napoleão (que ele ajudou a derrubar); Embaixador, Ministro das Relações Exteriores e Presidente do Conselho de Ministros durante a Restauração (Luís XVIII e Carlos X); Embaixador sob a Monarquia de Julho, após promover Luís Felipe como novo Rei. Assistiu às coroações de Luís XVI (1775), Napoleão I (1804) e Carlos X (1825), traindo cada um deles. E foi o Ministro plenipotenciário da França no Congresso de Viena, salvando seu país (da forma que ainda vamos contar). Um fenômeno de sobrevivência política. O rei da desfaçatez.
O vício no topo: A trajetória política de Talleyrand é espantosa. Estava no topo da hierarquia no Ancien Régime; no topo estava durante os Estados Gerais; se manteve no topo quando os Estados Gerais se tornaram uma Constituinte; no topo, quando a França se tornou uma monarquia constitucional; no topo quando veio a República, derrubando o Rei. Votou ignominiosamente a morte do Rei. Teve a pragmática premonição de fugir da França na fase do Terror e se manter longe na fase do Grande Terror. Retornou durante o Diretório, no topo; permaneceu no topo no Consulado; atravessou o império no topo; permaneceu no topo durante a Restauração. Que político pode ser mais exitoso do que Talleyrand? Como conseguiu tal façanha?
Pela mentira, pela dissimulação, pela amoralidade e pelo cinismo, Talleyrand atravessou muitos regimes sucessivos, regimes inimigos cada um do regime anterior, sempre solícito e promovendo o novo regime, para o qual conspirara e contra o qual iria conspirar oportunamente. Curvava-se para se elevar. Talvez por isso ele dizia:
« Nas grandes Cortes, um método de crescer é curvando-se”
“On connaît, dans les grandes cours, un moyen de se grandir : c’est de se courber.”
Ora, esse curvar-se é diminuir-se, mostrar-se menor diante de outros, para, na verdade, crescer na obtenção de vantagens, na promoção de negócios, negociatas…
A Fuga da Verdade: O problema da mentira torna-se maior quando o mentiroso sabe se exprimir muito bem. Palavras, mesmo falsas, mesmo obviamente falsas e más, podem encantar, seduzir, recrutar.
Nas artes, a verdade é representada por uma mulher despida, sob o argumento de que a verdade nada tem a esconder. Mas a verdade tem de ser prudente, guardar uma certa sobriedade, um certo pudor; não precisa se anunciar em qualquer circunstância. Já a mentira, esta nunca deve ter guarida. A proibição de mentir tem um valor mais absoluto do que a verdade de ser anunciada fora de hora.
Talleyrand achava mesmo, cinicamente, que as pessoas deviam ser cautelosas com os primeiros movimentos, porque eles tendem a ser verdadeiros:
“É necessário se guardar contra os primeiros impulsos, porque são quase sempre honestos”.
“Il faut se garder des premiers mouvements parce qu’ils sont presque toujours honnêtes.”
Lampião e Talleyrand: O primeiro pensamento costuma ser mais autêntico porque surge naturalmente, sem a censura de cálculos ambiciosos ou de falsos escrúpulos. Até mesmo Lampião, o Rei do Cangaço, falava sobre a autenticidade do primeiro pensamento, nas fazendas que o acolhiam no interior do Brasil. Mas Lampião desprezava a duplicidade, ao contrário de Talleyrand. Comparado a Talleyrand, Lampião tinha uma certa honradez.
A verdade assombra o embusteiro, aquele que só pensa no fim, sem considerar a correção dos meios.
Talleyrand sabia que é possível rebater, com a verdade, uma calúnia, uma acusação falsa. Mas o que fazer com uma verdade inconveniente? Talleyrand:
« Há uma coisa mais terrível do que a calúnia: a verdade”.
“Il y a une chose plus terrible que la calomnie, c’est la vérité.”
Como permanecer no topo, sempre? Traindo. Talleyrand traiu tudo e a todos, começando pela fé que professou, e a Igreja que deveria servir: foi ele quem propôs que a Revolução Francesa tomasse os bens da Igreja para se financiar. Não enxergava nenhum escrúpulo nos meios, mas via claramente os fins: o modelo que inspira muitos políticos do mundo de ontem e de hoje.
Talleyrand ocupou cargos de poder político durante toda sua vida e em todos os regimes que se foram sucedendo na França. Deputado dos Estados Gerais sob o Antigo Regime (representando o Clero, que ele traiu); Presidente da Assembleia Nacional e Embaixador durante a Revolução Francesa (quando deu início a seus atos de imensa corrupção); ajudou a derrubar o Rei (sendo dele servidor) e aderiu à República (a quem passou a servir, para trair mais tarde); votou a morte do seu senhor, o Rei Luís XVI; Ministro das Relações Exteriores no Diretório (que ele traiu em prol do Consulado), no Consulado (que ele traiu em prol do Império) e sob o Império (que ele traiu em prol do novo Rei); Presidente do Governo Provisório, após a queda de Napoleão (que ele ajudou a derrubar); Embaixador, Ministro das Relações Exteriores e Presidente do Conselho de Ministros durante a Restauração (Luís XVIII e Carlos X); Embaixador sob a Monarquia de Julho, promovendo o advento de Luís Felipe como novo Rei. Assistiu às coroações de Luís XVI (1775), Napoleão I (1804) e Carlos X (1825), todos por ele traídos. E foi o Ministro plenipotenciário do Rei no Congresso de Viena, onde salvou a França (como veremos em outras Notas)… Um fenômeno de sobrevivência política. O rei da desfaçatez.
A esperteza de Talleyrand: Virtudes? Para Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, o saber como conhecimento das coisas, a sabedoria como o discernimento das coisas, a sapiência como o judicioso acúmulo do saber e da sabedoria, tudo isso, em si, nada valia, salvo para atingir seus fins. Talleyrand:
« Existem três tipos de saber: o saber propriamente dito, o savoir-faire, e o savoir-vivre. Os dois últimos dispensam largamente o primeiro”
“Il y a trois sortes de savoir : le savoir proprement dit, le savoir-faire et le savoir-vivre ; les deux derniers dispensent assez bien du premier.”