Notas & Comentários – 27-06-2025

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A diplomacia e a culinária: Certamente, a maior glória de Charles- Maurice de Talleyrand-Périgord foi a diplomacia. Convenceu o Congresso de Viena a admitir a França na mesa das negociações e a praticamente preservar seu território anterior à Revolução. Só para lembrar: finalmente derrotada, a França estava arruinada pelas Guerras Napoleônicas, as quais haviam arrasado a Europa toda: só a França perdeu 2 milhões de pessoas. E Talleyrand foi o representante do Rei no Congresso de Viena, depois de haver, por um lado, servido o inimigo do Rei, Napoleão, e conspirado contra o mesmo imperador a quem servira. Extrema facilidade para mudar de lado, embora argumentasse que sempre fora fiel aos seus (de Talleyrand) ideias, ainda que distintos dos de seus senhores.

Congresso de Viena. Talleyrand é o segundo sentado, no canto direito. O quadro mostra, no canto esquerdo, o Duque de Wellington (de vermelho) sendo apresentado ao Congresso (pintura de Jean-Baptiste Isabey, 1850)

Talleyrand tinha a habilidade de, no jargão de hoje, trazer valor para os acionistas da empresa: só que a empresa era… ele próprio.

Além de ter uma conversa extremamente agradável e uma inteligência finíssima, Talleyrand transformou uma arte francesa em uma arma vitoriosa: a gastronomia:

“O melhor auxiliar de um Diplomata é seu cozinheiro”.

“Le meilleur auxiliaire d’un diplomate, c’est bien son cuisinier.”

O cozinheiro estava se tornando o – Chef de Cuisine, ou simplesmente o Chef.

Talleyrand usou dessa arma no Congresso de Viena, para delícia dos congressistas, e saborosas derrotas de muitos deles.

Talleyrand (à esquerda) e seu chef cuisinier, Antonin Carême

 

Mas… Como a diplomacia inglesa prosperou? Se o que Talleyrand estatuiu acerca da associação entre diplomacia e culinária fosse verdade universal, como a diplomacia inglesa prosperou? Talvez o sabor inglês que dava água na boca nas relações internacionais fosse de outra natureza – a libra esterlina…

Definitivamente, o sucesso internacional da diplomacia britânica não advinha de sua culinária. Os ingleses tinham cozinha, não gastronomia. Talleyrand:

“A Inglaterra tem dois molhos e trezentas religiões; a França, ao contrário, tem duas religiões e mais de trezentos molhos”.

“L’Angleterre a deux sauces et trois cents religions ; la France au contraire, a deux religions, mais plus de trois cents sauces.”

 

A origem dos restaurantes. Os Chefs-de-Cuisine: A Revolução francesa constituiu um golpe profundo na Nobreza do país. Os nobres que não fugissem corriam o risco de morrer na guilhotina e perder seus bens; e os que emigraram tiveram seus bens
confiscados. Essa situação foi bastante atenuada por Napoleão, que criou outra nobreza, a nobreza do mérito (segundo ele) e aceitou a volta de muitos membros da antiga nobreza que aderiram a ele. É muito difícil um novo regime se estabilizar aniquilando todos aqueles que serviram no regime deposto: melhor trazê-los.

Uma consequência da catástrofe que se abateu sobre os nobres, que fugiram, empobreceram ou morreram, foi o surgimento de restaurantes de qualidade. Como assim? Simples: os cozinheiros da alta nobreza perderam seus empregos nos palácios e tiveram de se reinventar: abriram restaurantes chiques, tornaram-se Chefs-de- cuisine. Não mais obscuros cuisiniers, mas Chefs.

 

O restaurante da queda da Bastilha: Foi no Café de Foy (abaixo), no Palais-Royal que, em 12 de julho de 1789, que Camille Desmoulins subiu numa mesa e fez um discurso inflamado incitando o povo parisiense à revolta, Desmoulins gritou “Às armas, cidadãos!” “Aux armes, citoyens”. Dois dias depois, a Bastilha caiu.