Caros,
O Diretório foi a fase mais corrupta da Revolução Francesa. Talleyrand, então escolhido Ministro das Relações Exteriores, viu uma oportunidade de enriquecer no cargo, e enriqueceu. Dizem que foi o único ministro a cumprir a meta estabelecida…
Mal se instalou no Ministério, ele coube tratar da paz com a Inglaterra. Chegando a Londres, Talleyrand declara publicamente seu pessimismo com respeito às tratativas da paz. A Bolsa foi desabada imediatamente. Tallleyrand usa fundos secretos de seu Ministério e compra de ações na baixa. Depois, ele se mostra otimista quanto ao sucesso das negociações e as ações disparam… Talleyrand vende as ações na alta: o lucro foi de 1.500.000 francos, equivalente a mais de 15 anos de trabalho de 1000 trabalhadores urbanos construídos.
Outro escândalo: Três membros do Congresso americano chegam a Paris em outubro de 1797 para reclamação uma indenização pelo apresamento de navios americanos pela marinha francesa, em desrespeito à neutralidade dos EUA. Eles esperavam ser recebidos em audiência pelo Ministro das Relações Exteriores, mas Talleyrand vai adiando a reunião… Os americanos não entendem. Afinal, Talleyrand foi bem recebido nos EUA, onde se refugiara nas fases do Terror e do Grande Terror da Revolução Francesa. Aí é que 3 emissários do Ministro dão a entender que, para serem recebidos, conviria oferecer alguns ‘douceurs’(mimos) a Talleyrand… Os americanos, coitados, protestam: ‘Nós só viemos pedir justiça e esse Ministro, esse religioso que renegou a Deus, teve a audácia de pedir 50 mil libras esterlinas’… ‘para alimentar seus vícios’…
Este escândalo derrubou Talleyrand, mas ele já, já estaria de volta, no bojo do Golpe do 18 Brumário, de cuja trama participou…
Em sua indignidade, Talleyrand conhecia bem as mulheres. Dizia:
« Fique com os pés delas. Fique de joelhos diante delas.. Mas jamais na mão delas.”
Transgressor de todos os Mandamentos: Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, em sua indignidade, recebeu todos os sacramentos, inclusive o do matrimônio. Sagrado bispo em 1788, renunciou ao episcopado em 1791, após múltiplas traições; o Papa concedeu dispensa dos votos eclesiásticos dele.
Talleyrand conhecia bem as mulheres, em relação às quais alertava, cinicamente:
« Fique as pés delas. Fique de joelhos diante delas… Mas jamais na mão delas.”
“Soyez à leurs pieds. A leurs genoux… Mais jamais dans leur mains.”
Talleyrand e Delacroix? Dizia-se, na época, que Talleyrand seria o pai do grande pintor Eugène Delacroix. Nada nunca foi provado, mas houve fatos que se prestaram a fofocas:
• Eugène Delacroix nasceu em 1798, quando Talleyrand tinha um relacionamento próximo com a mãe do pintor, Victoire Oeben, uma mulher atraente e que recebia vários admiradores em seu salão; Talleyrand frequentava a casa dos Delacroix.
• Contemporâneos notaram semelhanças físicas entre Delacroix e Talleyrand; e Delacroix gostava muito de política e de diplomacia, especialidades de Talleyrand.
• Talleyrand demonstrou interesse incomum pela carreira de Delacroix, ajudando-o discretamente
• Charles Delacroix, marido da mãe de Eugène, doente na época da concepção, pode ter sido incapaz de gerar filhos
Muitos biógrafos consideram a paternidade de Talleyrand muito provável, mas não definitiva. O próprio Delacroix nunca comentou sobre isso, embora alguns acreditem que ele soubesse.
Porém, Emmanuel de Waresquiel, grande historiador, e o melhor biógrafo de Talleyrand, afirma que Delacroix não é filho de Talleyrand. Penso que isso é suficiente para acabar com as fofocas. Mas a tal ponto chegou a fama sulfureuse de Talleyrand.

Estes dois livros de Waresquiel sobre Talleyrand são imbatíveis:
– Talleyrand: Le prince immobile. Talandier, 2019
– Talleyrand – Dernières nouvelles du Diable. CNRS Editions, 2017
Na imagem à direita, Jacó lutando com o Anjo, obra de Delacroix (1860) na igreja de Saint Sulpice, Paris. Jacó lutou a noite inteira contra um Anjo do Senhor, e venceu. Por isso, passou a ser chamado de Israel (aquele que luta com Deus).
Talleyrand – as maneiras da corrupção: Jean Tulard é um grande historiador, o mais respeitado especialista da Era Napoleônica. Vou usar aqui seu livro “L’Empire de l’Argent. S’Enrichir sous Napoléon” (Tallandier, 2023) para mencionar alguns casos de corrupção de Talleyrand.
A Revolução Francesa foi uma calamidade sob muitos aspectos e em todas as suas fases. Muito ódio, muito exílio, muitas execuções, muito confisco de bens. Já a grande corrupção ocorreu durante a fase do Diretório, quando Talleyrand foi escolhido, por indicação de Madame de Staël, como Ministro das Relações Exteriores, fazendo jus a salário anual entre 100.000 e 400.000 francos. Mas Talleyrand vislumbrou uma oportunidade de enriquecer no cargo. E enriqueceu, Disseram, na época, que foi o único ministro a atingir sua meta…
Mal se instalou no Ministério, lhe coube tratar da paz com a Inglaterra. Chegando em Londres, ele anuncia publicamente seu
pessimismo com respeito às tratativas de paz. A Bolsa desaba imediatamente. Tallleyrand usa fundos secretos de seu Ministério e compra as ações na baixa. Depois, ele se mostra otimista quanto ao sucesso das negociações e as ações disparam… Talleyrand vende as ações na alta: o lucro foi de 1.500.000 francos. O dinheiro investido era do Estado, mas o lucro ficou para ele. Nas transações do corrupto com o Estado, este sempre perde.
Os economistas se acham espertos: teriam, porém, mais humildade e mais cautela se entendessem que existem sistemas operacionais à la Talleyrand.
Para se ter ideia do valor do franco naquela época, um trabalhador comum ganhava entre 1,5 e 2 francos por dia; um trabalhador especializado, entre 3 e 4 francos por dia. Um litro de vinho comum custava 0,5 franco, o mesmo preço de um pão.
Ou seja, o valor embolsado por Talleyrand na jogada de Londres montava a mais de 15 anos de trabalho de 1000 trabalhadores urbanos qualificados. Algo imensamente grande.
O Caso XYZ: Três membros do Congresso americano chegam a Paris em outubro de 1797 para reclamar uma indenização pelo apresamento de navios americanos pela marinha francesa, em desrespeito à neutralidade dos EUA. Eles esperavam ser recebidos em audiência pelo Ministro das Relações Exteriores, mas Talleyrand vai adiando a audiência… Os americanos não entendem. Afinal, Talleyrand fora bem recebido nos EUA, onde se refugiara nas fases do Terror e do Grande Terror da Revolução Francesa. Aí eis que 3 emissários do Ministro (referidos como X, Y e Z) dão a entender que, para serem recebidos, conviria oferecer algumas ‘douceurs’ (mimos) a Talleyrand. O “mimo” era de 50 mil libras esterlinas. Os americanos, coitados, protestam: ‘Nós só viemos pedir justiça e esse ministro, esse religioso que renegou a Deus, teve a audácia de pedir 50 mil libras esterlinas ’… ‘para alimentar seus vícios’… A jovem nação americana ainda não estava acostumada a essas coisas…
Este escândalo derrubou Talleyrand, mas ele já, já estaria de volta, no bojo do Golpe do 18 Brumário, de cuja trama participou…