Notas & Comentários – 11-07-2025

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Transgressor de todos os Mandamentos: Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, em sua indignidade, recebeu todos os sacramentos, inclusive o do matrimônio. Sagrado bispo em 1788, renunciou ao episcopado em 1791, após múltiplas traições; o Papa concedeu dispensa dos votos eclesiásticos dele.

Talleyrand conhecia bem as mulheres, em relação às quais alertava, cinicamente:

« Fique as pés delas. Fique de joelhos diante delas… Mas jamais na mão delas.”

“Soyez à leurs pieds. A leurs genoux… Mais jamais dans leur mains.”

 

Talleyrand e Delacroix? Dizia-se, na época, que Talleyrand seria o pai do grande pintor Eugène Delacroix. Nada nunca foi provado, mas houve fatos que se prestaram a fofocas:

• Eugène Delacroix nasceu em 1798, quando Talleyrand tinha um relacionamento próximo com a mãe do pintor, Victoire Oeben, uma mulher atraente e que recebia vários admiradores em seu salão; Talleyrand frequentava a casa dos Delacroix.

• Contemporâneos notaram semelhanças físicas entre Delacroix e Talleyrand; e Delacroix gostava muito de política e de diplomacia, especialidades de Talleyrand.

• Talleyrand demonstrou interesse incomum pela carreira de Delacroix, ajudando-o discretamente

• Charles Delacroix, marido da mãe de Eugène, doente na época da concepção, pode ter sido incapaz de gerar filhos

Muitos biógrafos consideram a paternidade de Talleyrand muito provável, mas não definitiva. O próprio Delacroix nunca comentou sobre isso, embora alguns acreditem que ele soubesse.

Porém, Emmanuel de Waresquiel, grande historiador, e o melhor biógrafo de Talleyrand, afirma que Delacroix não é filho de Talleyrand. Penso que isso é suficiente para acabar com as fofocas. Mas a tal ponto chegou a fama sulfureuse de Talleyrand.

Estes dois livros de Waresquiel sobre Talleyrand são imbatíveis:

– Talleyrand: Le prince immobile. Talandier, 2019

– Talleyrand – Dernières nouvelles du Diable. CNRS Editions, 2017

Na imagem à direita, Jacó lutando com o Anjo, obra de Delacroix (1860) na igreja de Saint Sulpice, Paris. Jacó lutou a noite inteira contra um Anjo do Senhor, e venceu. Por isso, passou a ser chamado de Israel (aquele que luta com Deus).

 

Talleyrand – as maneiras da corrupção: Jean Tulard é um grande historiador, o mais respeitado especialista da Era Napoleônica. Vou usar aqui seu livro “L’Empire de l’Argent. S’Enrichir sous Napoléon” (Tallandier, 2023) para mencionar alguns casos de corrupção de Talleyrand.

A Revolução Francesa foi uma calamidade sob muitos aspectos e em todas as suas fases. Muito ódio, muito exílio, muitas execuções, muito confisco de bens. Já a grande corrupção ocorreu durante a fase do Diretório, quando Talleyrand foi escolhido, por indicação de Madame de Staël, como Ministro das Relações Exteriores, fazendo jus a salário anual entre 100.000 e 400.000 francos. Mas Talleyrand vislumbrou uma oportunidade de enriquecer no cargo. E enriqueceu, Disseram, na época, que foi o único ministro a atingir sua meta…

Mal se instalou no Ministério, lhe coube tratar da paz com a Inglaterra. Chegando em Londres, ele anuncia publicamente seu
pessimismo com respeito às tratativas de paz. A Bolsa desaba imediatamente. Tallleyrand usa fundos secretos de seu Ministério e compra as ações na baixa. Depois, ele se mostra otimista quanto ao sucesso das negociações e as ações disparam… Talleyrand vende as ações na alta: o lucro foi de 1.500.000 francos. O dinheiro investido era do Estado, mas o lucro ficou para ele. Nas transações do corrupto com o Estado, este sempre perde.

Os economistas se acham espertos: teriam, porém, mais humildade e mais cautela se entendessem que existem sistemas operacionais à la Talleyrand.

Para se ter ideia do valor do franco naquela época, um trabalhador comum ganhava entre 1,5 e 2 francos por dia; um trabalhador especializado, entre 3 e 4 francos por dia. Um litro de vinho comum custava 0,5 franco, o mesmo preço de um pão.

Ou seja, o valor embolsado por Talleyrand na jogada de Londres montava a mais de 15 anos de trabalho de 1000 trabalhadores urbanos qualificados. Algo imensamente grande.

 

O Caso XYZ: Três membros do Congresso americano chegam a Paris em outubro de 1797 para reclamar uma indenização pelo apresamento de navios americanos pela marinha francesa, em desrespeito à neutralidade dos EUA. Eles esperavam ser recebidos em audiência pelo Ministro das Relações Exteriores, mas Talleyrand vai adiando a audiência… Os americanos não entendem. Afinal, Talleyrand fora bem recebido nos EUA, onde se refugiara nas fases do Terror e do Grande Terror da Revolução Francesa. Aí eis que 3 emissários do Ministro (referidos como X, Y e Z) dão a entender que, para serem recebidos, conviria oferecer algumas ‘douceurs’ (mimos) a Talleyrand. O “mimo” era de 50 mil libras esterlinas. Os americanos, coitados, protestam: ‘Nós só viemos pedir justiça e esse ministro, esse religioso que renegou a Deus, teve a audácia de pedir 50 mil libras esterlinas ’… ‘para alimentar seus vícios’… A jovem nação americana ainda não estava acostumada a essas coisas…

Este escândalo derrubou Talleyrand, mas ele já, já estaria de volta, no bojo do Golpe do 18 Brumário, de cuja trama participou…