Caros,
O novo soberano francês, Luís XVIII, que deve consolidar seu trono, envia… bem, envia Talleyrand ao Congresso de Viena, como seu embaixador, com uma longa lista de instruções.
“Sire”, responde-lhe o Diabo Coxo, “preciso mais de panelas do que de instruções escritas”.
Efetivamente. Durante meses na Áustria, as panelas francesas vão encantar os grandes da Europa. Nos deslumbrantes jantares que oferece nosso diplomata, os convidados veem desfilar, atônitos, 48 entradas, uma plêiade de assados, lagostas, acompanhamentos, e extraordinários queijos e, oh! maravilha, sobremesas em formas arquitetônicas, de castelos, palácios…
A festa que ele organiza em honra do Duque de Wellington em fevereiro de 1815 (pouco dias antes da fuga de Napoleão da ilha de Elba) permanecerá por muito tempo nas memórias como o ápice da gastronomia.
Le Diable Boiteux – ou simplement Le Diable – passa todos os dias longos momentos na cozinha discutindo com seus ajudantes, inspecionando a frescura dos produtos e compondo os cardápios do dia. O trunfo de Talleyrand era um gênio chamado Antonin Carême, seu cozinheiro oficial, seu “Chef” – ele é o primeiro a se fazer chamar assim – Le Chef! Bastava seus suculentos vol-au-vent para dar toda dignidade de Chef a Carême.
Napoleão – que sabia das coisas -, mas que tinha um gosto culinário bem trivial, deixava a seu Ministro Talleyrand carta branca para receber em jantar todos os que importavam. Acostumado a viver em grande estilo, Talleyrand não se fez de rogado. Seus numerosos inimigos sussurravam:
“A cozinha é a única causa que ele nunca traiu”.
Mas quem jamais traiu uma boa cozinha?
Abraços,
Sávio.