Caros,
Nestas Notas, quero falar do famoso Teatro do Salmão, um episódio contado pelo grande historiador da Era Napoleônica, Jean Tulard.
Aconteceu durante um jantar diplomático organizado por Talleyrand. Enquanto Carême, seu Chef de Cuisine, entrava, trazendo um magnífico salmão, espetacularmente arranjado como uma obra de arte sobre a bandeja, os comensais se maravilharam: aaaahhhh! Eis porém que – tragédia! – Carême tropeça e a bandeja cai, esparramando seu preciosíssimo conteúdo. Ouviu-se um oooohhhh! de desconsolo.
Mas Talleyrand, impassível, bate palmas e, imediatamente a seguir, surge uma segunda bandeja, com um salmão ainda mais magnificamente arranjado. Ouviu-se outro aaaahhhh!, agora de imenso alívio e deslumbramento, como num grand finale pré-arranjado a fim de excitar as papilas dos convivas.
Esta reação ilustra perfeitamente a arte da diplomacia: nunca demonstre constrangimento e sempre dê a impressão de estar no controle da situação. Mesmo que tenha tudo sido pré-arranjado…
Assim, é possível conseguir a boa vontade para grandes negociações…
Talleyrand e Carême revolucionaram a diplomacia, tornando importante o que seria meramente secundário, quase que contradizendo Aristóteles: o que pareceria simples acidente se torna essencial. A gastronomia aproxima-se da substância na diplomacia, com Talleyrand e Carême.
O Diplomata e o Chef de Cuisine (1) : Talleyrand era conhecido por organizar jantares suntuosos em sua residência, o Hôtel Talleyrand em Paris (onde atualmente se encontra a Embaixada dos EUA): lá recebia dignitários estrangeiros, embaixadores e figuras políticas importantes. Talleyrand compreendia que as refeições eram muito mais que simples momentos para alimentação – eram oportunidades estratégicas para negociações diplomáticas.
Durante esses sofisticados banquetes, preparados por seu famoso Chef, Antonin Carême (considerado um dos fundadores da alta gastronomia francesa), Talleyrand criava um ambiente de intimidade e conforto que facilitava conversas confidenciais e acordos. Sabia que pessoas bem alimentadas e em ambiente agradável tendem a ser mais receptivas a propostas e negociações.
Essa “diplomacia de salão”, que Talleyrand dominava, consistia na arte de usar a hospitalidade, o conforto e o prazer à mesa como ferramentas para avançar objetivos políticos (e outros). Elementos aparentemente superficiais como a qualidade da comida e do vinho poderiam ter impacto significativo no sucesso de negociações diplomáticas complexas.
A estratégia gastronômica continua relevante hoje, pois a “diplomacia gastronômica” permanece um elemento importante nas relações internacionais, com jantares de Estado e banquetes oficiais ainda sendo palco de importantes discussões diplomáticas.
O Diplomata e o Chef de Cuisine (2): A relação entre Charles- Maurice de Talleyrand-Périgord e Marie-Antoine Carême foi a mais notável parceria entre um estadista e um chef de Cuisine na história da gastronomia. Carême serviu como chef principal de Talleyrand durante o Congresso de Viena (1814-1815) e continuou trabalhando para ele nos anos seguintes.
Talleyrand, o habilidoso (entre outras coisas menos louváveis) diplomata francês, fez, pois, da gastronomia uma ferramenta poderosíssima. Também, os sofisticados jantares preparados por Carême no Château de Valençay, outra residência de Talleyrand, se tornaram lendários.
Carême, por sua vez, encontrou em Talleyrand um patrono que apreciava verdadeiramente sua arte e lhe dava liberdade criativa para desenvolver sua “grande cuisine“. Sob a proteção de Talleyrand, ele pôde aperfeiçoar muitas das técnicas e preparações que posteriormente documentou em suas obras culinárias, como “L’Art de la Cuisine Française“.
O Diplomata e o Chef de Cuisine (3): Um aspecto interessante dessa relação entre os dois era como Talleyrand utilizava os talentos de Carême estrategicamente. Por exemplo, ele sabia exatamente quando servir pratos específicos para criar o ambiente desejado durante negociações diplomáticas delicadas. A sofisticação das criações de Carême ajudou a estabelecer a França como líder cultural da Europa, como era no Ancien Régime, mesmo após a derrota de Napoleão.
De notar que a França, mesmo derrotada após 23 anos de guerra com as demais potências europeias, conseguiu, basicamente, manter intacto seu território pré-Revolução. De notar ainda que nessas guerras a quantidade de mortos foi algo inédito na história: no total, para todo o período (1792-1815), as estimativas mais atuais sugerem entre 3,5 e 6,5 milhões de mortes, entre militares e civis. Uma hecatombe européia.
O Teatro do Salmão : Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord e Marie-Antoine Carême deixaram, efetivamente, a sua marca na história da gastronomia e da diplomacia francesas.
A anedota do dramático acidente da bandeja do salmão é particularmente ilustrativo. Vi essa história pela primeira vez contada numa conferência do grande historiador napoleonista Jean Tulard.
Aconteceu durante um jantar diplomático organizado por Talleyrand. Enquanto Carême, seu Chef, entrava, trazendo um magnífico salmão, espetacularmente arranjado como uma obra de arte sobre a bandeja, os comensais se maravilharam: aaaahhhh! Eis porém que – tragédia! – Carême tropeça e a bandeja cai. Ouviu-se um oooohhhh! de desconsolo. Mas Talleyrand, impassível, bate palmas e, imediatamente a seguir, surge uma segunda bandeja, com um salmão ainda mais magnificamente arranjado. Ouviu-se outro aaaahhhh!, agora de imenso alívio e deslumbramento, como num grand finale pré-arranjado a fim de excitar as papilas dos convivas.
Assim, é possível conseguir a boa vontade para grandes negociações…
Esta reação ilustra perfeitamente a arte da diplomacia: nunca demonstre constrangimento e sempre dê a impressão de estar no controle da situação. Mesmo que tenha tudo sido pré-arranjado…
(Ver a palestra de Jean Tulard, em especial a partir dos 36’ https://www.youtube.com/watch?v=Dgj29_G1K78)
O charme é tudo – as lições do salmão: Esta anedota destaca vários aspectos importantes:
– A “diplomacia da mesa” de Talleyrand considerava as refeições instrumentos diplomáticos essenciais, utilizando a gastronomia para criar um ambiente propício às negociações.
– O gênio culinário de Carême, apelidado de “o rei dos chefs e o chef dos reis”, revolucionou a culinária francesa e criou muitas receitas que ainda hoje são famosas.
– A importância da gastronomia na diplomacia francesa tornou-se uma tradição que continua, sendo a cozinha francesa considerada uma ferramenta de soft power.
Talleyrand e Carême revolucionaram a diplomacia, tornando importante o que seria secundário, quase que contradizendo o filósofo peripatético: o que pareceria mero acidente se torna essencial. Com efeito, para Aristóteles, a substância é o que é permanente nas coisas que mudam, e o acidente é o que é efémero, aparente, transitório. A substância é o fundamento de todo acidente, e a essência da substância é suportar a existência dos acidentes. A gastronomia aproxima-se da substância na diplomacia, com Talleyrand e Carême.