Caros,
Após havermos falado em outras Notas sobre o Service à la Russe, que ousou suplantar o Service à la Française, abordaremos outros mistérios russos. A questão é antiga. Churchill:
A Rússia é uma charada envolta em um mistério dentro de um enigma.
Esta famosa frase é de Winston Churchill e foi dita em 1939.
A Rússia tentou se europeizar: até onde conseguiu? Certamente tinha uma mentalidade filo-europeia.
Catarina II da Rússia (Catarina, “a Grande”) comprou a biblioteca de Voltaire em 1778, logo após a morte do filósofo francês. Os monarcas iluministas gostavam de ser chamados de “Grande: Catarina a Grande, da Rússia, Frederico Guilherme o Grande, da Prússia… E adoravam parecer amigos dos filósofos iluministas, gostavam dessa “amizade” (um pouco cara) que lhes podia trazer prestígio.
Catarina, a Grande, pagou 30.000 libras francesas pela biblioteca de Voltaire, que incluía cerca de 6.900 volumes. Ela também adquiriu os manuscritos pessoais de Voltaire, mas a Imperatriz permitiu que a biblioteca permanecesse em Ferney (Castelo de Voltaire na fronteira entre França e Genebra) durante a vida da sobrinha dele, Madame Denis. Somente em 1779 a coleção foi efetivamente transportada para São Petersburgo.
Catarina também comprou a biblioteca de Diderot em 1765, mas permitiu que ele a continuasse usando até sua morte, pagando-lhe ainda um salário como “bibliotecário” de sua própria coleção!
Talvez se pudesse dizer que o cartão de apresentação para a Rússia entrar na civilização europeia se comporia de itens assim:
– seu modo elegante e relativamente prático de servir à mesa;
– a literatura (Tolstoi, Dostoieveski…).
– a música (Tchaikovsky…) e, claro, o ballet;
Curioso observar que nunca se impôs na Europa um modo japonês ou indiano, p. ex., de servir à mesa; tampouco, ninguém toca ou canta ou dança a música desses países. Nem incorporou a literatura desses países.
Mas… basta?
Os Mistérios da Rússia – Churchill: Após termos falado em outras Notas sobre o Service à la Russe, que ousou suplantar o Service à la Française nos jantares de aparato. Surge uma pergunta: a Rússia poderia ser parte da Europa? Vamos discorrer um pouco sobre mistérios russos.
Churchill:
Russia is a riddle wrapped in a mystery inside an enigma.
A Rússia é uma charada envolta em um mistério dentro de um enigma.
Esta famosa frase de Winston Churchill foi proferida em 1939 durante um discurso radiofônico sobre a política externa soviética. Depois de Munique (1938), a Alemanha e a União Soviética assinaram (1939) o Pacto de Não-Agressão, abrindo a porta da Segunda Guerra Mundial.
O veneno contra quem preparou o veneno? Em 29 de setembro de 1938, em Munique, o raciocínio de Chamberlain para o Acordo era: ceder à Alemanha, porque a Alemanha iria lutar contra a União Soviética, poupando a Inglaterra…
Em Moscou, em 23 de agosto de 1939, o raciocínio do Pacto, para Stalin, era: Vamos fazer um acordo com o arqui-inimigo ideológico nazista, porque ele vai lutar contra a Inglaterra e a França…
Dias depois do Pacto de Não-Agressão, em 1º de Setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia por um lado e a União Soviética pelo outro.
Depois, em 1940, a Alemanha invadiu a França como previsto na estratégia de Stalin. E em 1941, a Alemanha invadiu a União Soviética, como previsto na estratégia de Chamberlain…
Era a catástrofe da Segunda Guerra Mundial.
Mas eu havia iniciado estas Notas tendo em mente a seguinte questão: a Rússia é parte da Europa, ou não? A pergunta é simples; a resposta, complexa.
Os Mistérios da Rússia – o Iluminismo, Voltaire: A Rússia tem, certamente, muitos mistérios. No séc. XVIII constituía um povo rude, quase grosseiro, mas queria mostrar finesse. Constituída de muitos povos, mas capaz de enormes sacrifícios pela pátria. Por que a Rússia buscou se assimilar à Europa? Gestos de importação do modelo europeu e, em particular, do modelo francês são impressionantes.
Catarina II da Rússia (Catarina, “a Grande”) comprou a biblioteca de Voltaire em 1778, logo após a morte do filósofo francês. Os monarcas iluministas gostavam de ser chamados de “Grande”:
Catarina a Grande, da Rússia, Frederico Guilherme o Grande, da Prússia… Adoravam parecer amigos dos filósofos iluministas, gostavam dessa “amizade” que lhes podia trazer prestígio. Catarina, a Grande, pagou 30.000 libras francesas pela biblioteca de Voltaire, que incluía cerca de 6.900 volumes. Ela também adquiriu os manuscritos pessoais de Voltaire, mas a Imperatriz permitiu que a biblioteca permanecesse em Ferney, durante a vida da sobrinha dele, Madame Denis (Ferney, era um Castelo de Voltaire na fronteira entre França e Genebra, conveniente para fugir de eventuais perseguições). Somente em 1779 a coleção foi efetivamente transportada para São Petersburgo.
Os Mistérios da Rússia – Diderot, depois de Voltaire: A Imperatriz Catarina era uma grande admiradora do Iluminismo francês e mantinha correspondência com vários filósofos, incluindo Voltaire e Diderot.
Já antes, Catarina também comprara a biblioteca de Diderot em 1765, mas permitiu que ele continuasse usando-a até sua morte, pagando-lhe ademais um salário como “bibliotecário” de sua própria coleção!
Ela via essa aquisição como forma de:
• Demonstrar seu compromisso com as ideias iluministas (mesmo se ruins)
• Elevar o prestígio cultural da Rússia: a relação com intelectuais famosos valia mais do que a opinião do povo
• Preservar o legado intelectual de Voltaire e de Diderot
Os livros de Voltaire permanecem até hoje na Biblioteca Nacional da Rússia em São Petersburgo, sendo uma das coleções mais relevantes do mundo para estudos do Iluminismo .
Os Mistérios da Rússia – credenciais europeias: A Rússia faz ou não faz parte da Europa? É uma percepção que variou ao longo do tempo. Talvez se pudesse dizer que o cartão de apresentação para a Rússia entrar na civilização europeia se comporia de itens assim:
– seu modo elegante e relativamente prático de servir à mesa (service à la russe);
– a música (Tchaikovsky, etc.);
– o ballet (Ballet Bolshoi, etc.);
– a literatura (Tolstoi, Dostoiévski, etc.).
O serviço à russa se tornou particularmente popular durante a Era Vitoriana (1837-1901), quando a formalidade e o refinamento à mesa atingiram seu ápice na sociedade europeia. Este período coincidiu com o crescimento da classe média alta e o desenvolvimento de uma cultura gastronômica mais sofisticada.
Curioso observar que nunca se impôs na Europa um modo japonês ou indiano, p. ex., de servir à mesa; tampouco, ninguém toca ou canta ou dança a música desses países. Nem incorporou a literatura desses países.
Mas… Basta?