Caros,
As mulheres da família Noailles eram três, mãe, filha e neta. A Duquesa de Noailles estava com 70 anos; seu marido morrera há pouco. Sua filha era a duquesa d’Ayen, e sua neta, a viscondessa de Noailles: os maridos das duas fugiram da França – e da Revolução Francesa e… da guilhotina. Essas três mulheres e mais três criancinhas (a mais velha tinha 11 anos) ficaram na França: ninguém da família jamais imaginou que a Revolução a pudesse maltratar, muito menos matar mulheres.
As três gerações Noailles se trancaram numa das mansões da família em Paris. Esperavam viver aí com bastante discrição para não atrair a atenção de ninguém. Não saíam para nada. Faça caridade, quando possível. Não quis dar uma impressão mais longa de oposição ao regime revolucionário. Elas não fizeram nada contra o regime, mas havia um problema: eram nobres, nasceram na Nobreza: foram presas.
Também na prisão, no Palácio de Luxemburgo, as senhoras Noailles nada fizeram, nem diziam nada que pudessem atrair a atenção sobre elas. Um dia, porém, jogam ovos podres na cela e as três mulheres reclamam. Recuperar? São acusadas… Em 3 Thermidor (21.7.1794) são discriminadas para a Conciergerie, para julgamento, ou seja, para a declarações certas à guilhotina…
Quando foram buscá-las, a Duquesa d’Ayen foi a Imitação de Cristo , de Tomás de Kempis. Ela marcou o lugar onde parara a leitura com uma mensagem aos filhos: “ Meus filhos, coragem eoração”. Mãe é mãe. A um passo da morte, pensando nos filhos.
Era tarde, quando as três mulheres chegaram na Conciergerie. Uma presa cedeu sua cama – ou o que passa por uma cama – para a duquesa de Noailles; ofereceram um colchão para a duquesa d’Ayen; e planejamos improvisar algo para a viscondessa de Noailles, que se recusa, consciente da alta gravidade do momento, com aquela frase célebre:
– “Não vale a pena dormir tão perto da eternidade” .
Que frase grandiosa! Sim, é melhor se preparar para o grande momento de se encontrar com Deus.
As mulheres da família Noailles: Eram três, mãe, filha e neta. A Duquesa de Noailles, Catherine de Condé-Brissac, estava com 70 anos; seu marido morrera há pouco. Sua filha era a Duquesa d’Ayen, e sua neta, a viscondessa de Noailles: os maridos das duas fugiram da França – da Revolução Francesa e… da guilhotina.
Essas três mulheres e mais três criancinhas (a mais velha tinha 11 anos) ficaram na França, pois nunca ninguém imaginou que a Revolução poderia maltratar, muito menos matar mulheres.
À esquerda, imagem de Catherine de Cossé-Brissac, Duquesa de Noailles, com 70 anos: tal como era no tempo em que foi guilhotinada. Para que matar uma senhora de 70 anos que não fez nada contra a Revolução?
As três gerações Noailles se trancaram numa das mansões da família em Paris. Esperavam viver aí bastante discretamente para não atrair a atenção de ninguém. Não saíam para nada. Faziam caridade, quando possível. Não queriam dar a mais longínqua impressão de oposição ao regime revolucionário.
Elas não fizeram nada contra o regime, mas havia um problema: eram nobres, nasceram na Nobreza, e isso as tornava suspeitas.
A Lei dos Suspeitos: Sim, no dia 17 de setembro de 1793 fora promulgada a Lei dos Suspeitos. E todos que tinham a ver com o Antigo Regime e com a Nobreza foram presos. As três Noailles foram presas. Inicialmente, em domicílio, pelo estado de saúde da velha duquesa. Mas tinham de pagar diárias e refeições dos dois guardas que as vigiavam, dois sans-culottes.
Vamos guardar bem o nome das três mulheres:
– Catherine de Cossé-Brissac, Duquesa de Noailles, 70 anos;
– Henriette Anne Louise d’Anguesseau, Duquesa d’Ayen, filha de Catherine ;
– Anne Jeanne Baptiste Louise de Noailles, Viscondessa de Noailles, filha de Henriette, neta de Catherine.
Em junho de 1794, com a Revolução já na fase do Grande Terror, imperava uma lei, obra de Robespierre, suprimindo todas as aparências, até então observadas, de justiça: nada de inquérito prévio, de interrogatório, de testemunhas, de advogado de defesa… Agora, bastava constatar a identidade, e havia uma só pena, a morte.
As senhoras Noailles, na prisão (o Palácio de Luxemburgo se tornara prisão), nada faziam, nem diziam nada que pudesse atrair a atenção sobre elas. Mantinham-se à parte, e era difícil para os delatores (moutons) entrarem em conversação com elas. Um dia, porém, jogam ovos podres na cela e as três mulheres reclamam. Reclamam? São acusadas… Em 3 Thermidor (21 de julho de 1794) chega a ordem de transferência para a Conciergerie, para julgamento, i.e., para a condenação certa à guilhotina…
Conciergerie: Quando foram buscá-la, a Duquesa d’Ayen lia a Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis. Ela escreveu rapidamente uma mensagem para marcar o lugar onde parara a leitura. A mensagem (vide imagem abaixo) dizia: “Meus filhos, coragem e oração” (Mes enfants, courage et prière). Mãe é mãe. Beijou o livro e o deixou com a Duquesa de Orleans (bisavó do Conde d’Eu, marido da nossa Princesa Isabel), reclusa a alguns passos dela. A queda de Robespierre salvou a Duquesa de Orleans, que cumpriu esse último pedido: o livro e a frase dramática continuavam sendo cuidadosamente guardados pelos descendentes da Duquesa d’Ayen, como relata G. Lenotre em seu belo livro Le Jardin de Picpus, em que conta a história da fase do Grande Terror da Revolução Francesa, e que usei como base destas Notas.
Era tarde, quando as três mulheres chegaram na Conciergerie. Os fornecedores não podiam mais entrar e vender alimentação à noite; as outras prisioneiras ofereceram comida e água de groselha para matar a sede. Uma presa cedeu sua cama – ou o que passava por uma cama – para a duquesa de Noailles; ofereceram um colchão para a duquesa d’Ayen; e tentaram improvisar algo para a viscondessa de Noailles, que recusa, com aquela frase célebre:
– “Não vale a pena dormir tão perto da eternidade”.
Que frase grandiosa. Melhor se preparar para o grande momento de se encontrar com Deus.
