Caros,
Concluiremos, agora, as Notas sobre as mães da família Noailles iniciadas na semana anterior.
As três senhoras da família Noailles estavam, pois, presas na Conciergerie, em Paris. A Duquesa d’Ayen ainda tinha um relógio, a única joia que lhe restava, e queria deixar para os netos. Mas ninguém aceitou recebê-lo, com medo de retaliação das autoridades: todos os bens de um condenado pertenciam ao Estado. Também a Viscondessa de Noailles queria deixar aos filhos uma carteira vazia, e uma mecha de seus cabelos: ninguém tampouco aceitou a tarefa. Que coisa. Apesar do slogan, a Revolução Francesa não cultivava a Fraternité.
Porém o que mais impressiona nesses gestos é a preocupação da Duquesa d’Ayen, mãe da Viscondessa de Noailles, ao perceber que sua filha não descansava. Passou a noite exortando, insistindo para a filha descansar. A maior preocupação da mãe não era com a morte delas todas no dia seguinte, era – só mãe mesmo! – era que a filha não descansava, não dormia… Mãe é aquele amor inefável que acha que tem de cuidar, ninar os filhos por toda a vida, inclusive na hora da morte.
A viscondessa de Noailles sabia que elas três certamente iam morrer no dia seguinte. Logo, era importante preparar-se para a morte. Mas a Duquesa d’Ayen sendo, realmente, mãe: queria que a filha dormisse, descansasse:
– “Mãe, não vale a pena dormir tão perto da eternidade”.
Melhor se preparar bem para a Vida Eterna. E a hora da morte é aquele momento definidor da eternidade.
E lá partiram elas nas carroças para a guilhotina. Um padre amigo da família havia se comprometido a dar a absolvição a elas no caminho, da calçada, já que a Revolução não admitia a entrada de padres na prisão para os últimos sacramentos. Haviam combinado que ele estaria usando uma roupa de determinada cor e feição, para que elas o reconhecessem, pois a Revolução proibira o uso de batina. E elas o viram, com imensa alegria. O padre deu o sinal que haviam combinado e a Duquesa d’Ayen e sua filha se ajoelharam na carroça. De longe, o padre deu a absolvição condicional e as abençoou antes que as carroças seguissem adiante.
A pobre Viscondessa de Noailles viu sua avó e sua mãe serem decapitadas. As três senhoras foram enterradas na mesma vala comum, junto a outros 1.306 supliciados.
É inescapável a pergunta: – Por que matar essas mulheres, que nada fizeram contra a Revolução Francesa? Na verdade, a Revolução abriu o precedente para as matanças em massa, com aparência de legalidade, com base no nascimento: na raça ou na classe. Depois, Stalin e Hiltler só copiaram o modelo e industrializaram a morte.
Mãe realmente é mãe: As três senhoras da família Noailles estavam, pois, presas na Conciergerie, em Paris. Pertenciam à alta nobreza do Ancien Régime. A Duquesa d’Ayen ainda tinha um relógio, a única joia que lhe restava e queria deixar para os netos. Mas ninguém aceitou recebê-lo, com medo de retaliação das autoridades: todos os bens de um condenado pertenciam ao Estado. Também a Viscondessa de Noailles queria deixar aos filhos uma carteira vazia, e uma mecha de seus cabelos: ninguém tampouco aceitou a tarefa. Que coisa. Apesar do slogan, a Revolução não cultivava a Fraternité.
O que mais impressiona, porém, nesses gestos é a preocupação da Duquesa d’Ayen, mãe da Viscondessa de Noailles, ao perceber que sua filha não descansava: passou a noite exortando, insistindo para a filha descansar. A maior preocupação da mãe não era com a morte delas todas no dia seguinte, era – só mãe mesmo! – era que a filha não descansava, não dormia… Mãe é aquele amor inefável que acha que tem de cuidar, ninar os filhos por toda a vida, inclusive na hora da morte.


Duquesa d’ Ayen (à esquerda), mãe da Viscondessa de Noailles (à direita).
A viscondessa de Noailles sabia que elas três certamente iam ser guilhotinadas no dia seguinte. Logo, era importante preparar-se para a morte. Mas a Duquesa d’Ayen sendo, realmente, mãe: queria que a filha descansasse, dormisse um pouco:
– “Mãe, não vale a pena dormir tão perto da eternidade”.
Melhor se preparar bem para a Vida Eterna. A hora da morte é aquele momento definidor da eternidade.
Na carroça, para a guilhotina: O dia marcado para a execução das três senhoras Noailles foi 22 de julho de 1794. Duas carroças foram levadas até os portões da Conciergerie para transportar os condenados até a guilhotina. A Duquesa de Noailles, uma anciã de 70 anos, foi colocada na primeira carroça com outras sete mulheres, separada da filha e da neta, coitada. A Duquesa d’Ayen e a filha desta, a Viscondessa de Noailles, estavam sentadas na segunda carroça. Um padre amigo da família havia se comprometido a dar a absolvição a elas: ele estaria usando uma roupa de determinado feitio e cor, para que elas o reconhecessem, pois a Revolução proibira o uso de batina, e já não admitia um padre entrar na prisão para dispensar os últimos sacramentos. Enquanto as carroças passavam pelas ruas, o céu escurecia e uma tempestade irrompeu, reduzindo a multidão de espectadores curiosos. Isso tornou mais fácil para as senhoras identificarem a figura bem conhecida do padre. Ele deu o sinal que haviam combinado e a Duquesa d’Ayen e sua filha se ajoelharam na carroça. De longe, o padre deu a absolvição final e as abençoou antes que as carroças seguissem adiante.
Já a Duquesa de Noailles, com 70 anos, não viu o padre; talvez nem se lembrasse do que haviam combinado. Os ventos fortes arrancaram sua touca, deixando a chuva cair diretamente em seu rosto. Suas mãos já estavam amarradas nas costas: as gotas de chuva pareciam lágrimas, mas a matriarca Noailles, exposta aos elementos, e apegada a Deus, não chorava.
As três senhoras diante da guilhotina: Após mais de duas horas de trajeto, as carroças chegaram à Barrière du Thrône Renversé, onde o cadafalso estava instalado. O carrasco e seus dois assistentes aguardavam os condenados. A primeira carroça foi descarregada e as execuções começaram. Devido à sua condição, a Duquesa de Noailles foi autorizada a sentar-se em um banco de madeira enquanto as outras duas mulheres subiam a escada. A velha duquesa manteve os olhos no chão e permaneceu digna, apesar dos insultos gritados pelos espectadores. Ela então subiu os degraus do cadafalso; o carrasco teve que cortar a parte de cima do vestido dela para expor completamente seu pescoço.
A Duquesa d’Ayen foi a décima mulher a ser executada naquele dia. Ela também estava resignada e digna. O carrasco tirou-lhe a touca, mas não percebeu que ela havia ficado presa em seu cabelo; ele o arrancou, o que produziu a única expressão de dor que perpassou o rosto da Duquesa naquele dia. Suas mãos amarradas nas costas, foi decapitada.
A pobre Viscondessa de Noailles tinha visto sua avó e sua mãe serem decapitadas. A vez dela era imediatamente após a sua mãe. Enquanto subia a escada, um comentário blasfemo de um espectador a fez parar: ela se virou e disse: “Pelo amor de Deus, peça perdão”: estava preocupada com a alma do blasfemo. E continuou a subir os degraus para morrer.
As três senhoras foram enterradas na mesma vala comum, num lugar que se tornaria, alguns anos depois, o Cemitério de Picpus. Alguns parentes dos 1306 guilhotinados na Barrière du Thrône Renversé conseguiram adquirir o terreno, que ainda hoje é um cemitério privado em Paris.
Lafayette, que não foi guilhotinado porque fugira, também foi enterrado lá, algumas décadas depois; é o túmulo mais bem conservado, pois está aos cuidados da Embaixada americana. O grande historiador G. Lenotre, que tão tocantemente escreveu sobre a Revolução Francesa, especialmente em seu livro Le Jardin de Picpus, foi também enterrado lá, já no séc. XX.
Por que matar essas mulheres, que nada fizeram contra a Revolução Francesa? Não se pode deixar de refletir sobre episódio tão cruel. Na verdade, a Revolução abriu o precedente para as matanças em massa com aparência de legalidade, com base no nascimento: na raça ou na classe. Stalin e Hiltler só copiaram o modelo e industrializaram a morte.