Notas & Comentários – 13-06-2025

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Falar bem, escrever bem: São dons que seduzem. São Jerônimo, p. ex., se converteu ao perceber isso. Ele se deliciava nas leituras de Cícero, que escrevia com grande graça. Um dia, São Jerônimo teve um sonho: ele chegava diante do trono de Deus, e aí foi acusado de ser mais ciceroniano do que cristão. Isso o assustou e o despertou.

Houve pessoas que se expressavam quase tão bem como Cícero e que exerceram grande sedução em que os lia. Se essas pessoas eram más, eis um problema. É o caso de Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, um político inteligentíssimo, que gostava de se expressar por meio de aforismos e frases cortantes.

Mas, se Talleyrand era um político cínico, calculista, mentiroso, corrupto, traidor, por que falar de um personagem assim? Para nos protegermos da sedução do charme.

 

Os vícios na história: A gente chega a pensar que a mentira e o cinismo são o grande apanágio de nossos tempos, mas não, nada disso. Sempre foi, em todos os tempos. Apenas ocorre que, agora, há milhões de megafones nas redes sociais para divulgação do cinismo e da mentira. A distância temporal às vezes embaralha as percepções. Mas há outro aspecto. Antes, a mentira parecia mais elaborada, talvez mais envergonhada, e o cinismo parecia mais natural, talvez mais cauteloso, se é que esses adjetivos jamais podem ser aplicáveis a substantivos tão infames.

Hoje (aliás, sempre), a mentira chega como solidariedade, mas é interesseira; e o cinismo, com ares de autoridade, mas é autoritarismo.

Falo isso pensando em Talleyrand, inteligência superior, grande expoente da Revolução Francesa, de todas as fases da Revolução, inclusive do Diretório e do Consulado, mas também do Império, da Restauração e da Monarquia de Julho…e que conseguiu sobreviver a ela, a todas as fases dela, e às posteriores a ela, por meio de artimanhas, artifícios, ambiguidades, fugas, mentiras e… traições.

 

Personagem fascinante, quand même? Talleyrand foi um personagem complexo e fascinante, em certos aspectos. Oriundo da alta nobreza de França, ele atravessou todos os regimes políticos durante sua longa carreira. Primeiro, sacerdote – sem nenhuma vocação -, e depois bispo de Autun; presidiu a Assembleia Nacional durante um período da Revolução. No Diretório, foi Ministro das Relações Exteriores. No Império, foi embaixador e depois ministro das Relações Exteriores. Na Restauração, foi presidente do Conselho de Ministros. E finalmente ele é novamente embaixador da Monarquia de Julho em Londres. Os historiadores, fascinados, o descrevem como um traidor cínico ou como um líder visionário – sim, até porque talvez esses dois qualificativos podem estar juntos na mesma pessoa. Um adjetivo resume o personagem melhor do que qualquer outro: oportunista. E inescrupuloso. E não é que a França deve muito a ele?: no Congresso de Viena, ele salvou a França.

 

Le Diable Boiteux: Talleyrand tinha o pé torto – pied bot. Cambota, coxo, era apelidado de – Le Diable Boiteux, o Diabo Manco. Às vezes, por antonomásia, era chamado apenas de Le Diable, título que lhe caía bastante bem.

Talleyrand: retrato por Pierre-Paul Prud’hon, 1809. E suas botas ortopédicas (Château de Valençay).

 

Um aforismo: Talleyrand tinha charme nas palavras, nos modos, nas ideias. Talleyrand “avait de l’esprit”, mas ele mesmo dizia: “L’esprit, qui sert à tout, ne suffit à rien.
“O espírito, que serve para tudo, não é suficiente para nada.”

Esse aforismo sugere que o brilho, embora útil em muitas situações, não é por si só suficiente para resolver todos os problemas ou alcançar todos os objetivos. Era necessário esperteza.

Como, então, ele explica seu imendo sucesso? Via traição? Corrupção? Oportunismo? Ele navegava nesses substantivos…

 

O traidor de tudo: Célebre por sua conversação, sagacidade, inteligência, por seu brilho, levou uma vida entre o Antigo Regime e o século XIX. Do Ancien Régime, da era do iluminismo, ele tomou a graça das formas e deixou pra lá as utopias; do século XIX não caiu no Romantismo, permanecendo sempre prático, realista, interesseiro. Traía sem enrubescer: Era da alta nobreza e ajudou a destruir a nobreza. Foi Bispo de Autun e ajudou a proscrever, constranger e perseguir o Clero. Foi eleito deputado do Clero aos Estados Gerais e aprovou a cismática Constituição Civil do Clero. Foi o administrador dos bens da Igreja na França, e propôs o confisco dos bens da Igreja logo nos primeiros meses da Revolução Francesa – o maior e mais descarado roubo da história. Poucas pessoas causaram tanto mal à Igreja, na prática.