Notas & Comentários – 01-08-2025

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Entrar no Itamaraty: O grande poeta Da Costa e Silva (Antônio Francisco da Costa e Silva, Amarante-PI, 1895 – Rio de janeiro – RJ 1950), tentou entrar na carreira diplomática. Tinha uma inteligência brilhante, mas foi reprovado. Como?

O filho dele, o eminente Alberto da Costa e Silva, é quem conta essa história.

Naquela época, todo candidato tinha de passar por um teste tremendo: uma entrevista com o Barão do Rio Branco. Mas o Barão não aceitou o Poeta. Por quê? Rio Branco o considerava muito feio…

“Olha, o senhor é um homem inteligente, admiro-o como poeta, contudo não vou nomeá-lo porque o senhor é muito feio e não quero gente feia no Itamaraty…”

Da Costa e Silva é autor de um dos mais belos sonetos da língua portuguesa – Saudade. E é o autor da letra do Hino do Piauí.

 

A vingança: Alberto da Costa e Silva resolveu ser diplomata e tentar o que o pai não conseguira.

Havia ainda a tal entrevista antes da aceitação final. O entrevistador lhe perguntou por que queria seguir a carreira diplomática, ao que Alberto respondeu:

– “Por vingança.”

Vingança, pela negativa contra o pai dele.

Alberto da Costa e Silva teve 3 filhos: dois homens, que também se tornaram diplomatas e um mulher, esposa de diplomata. Vingança completa. Para o bem do Itamaraty.

 

O intelectual que amava a África: Alberto da Costa e Silva encanta a gente. Não apenas pelo que escreveu, mas igualmente pelo que falou.

Ele amava a África, e faz a gente amar a África. Das formas mais surpreendentes. Por exemplo, pela origem das palavras.

Em seu belo livro A África Explicada aos Meus Filhos (Nova Fronteira, 2013), que todo brasileiro deveria ler, Dr. Alberto lembra algumas palavras de origem africana:

Verbos: Cochilar, fungar, xingar e zangar. Substantivos: bagunça, cachaça, caçula, cafuné, camundongo, carimbo, fuxico, fuzarca, garapa, lengalenga, molambo, quitanda, quitute, sunga, tanga. Adjetivos: capenga, dengoso, encabulado, zonzo.

Para ilustrar o sentido emocional das palavras, Alberto da Costa e Silva constrói uma frase com palavras oriundas da África e de Portugal:

A pergunta com a herança africana:

E o que fazem os portugueses quando têm de zangar com o caçula dengoso que estava cochilando durante uma lengalenga como esta?

A resposta com a herança portuguesa:

Eles se irritam e se aborrecem com o benjamim manhoso que dormitava durante essa conversa enfadonha.

Não dá pra comparar…

 

A Casa Grande é… africana: Uma das coisas que mais me impressionaram foi a afirmação de Alberto da Costa e Silva de que a Casa Grande é uma criação africana. Mais expressamente, ele afirmou que a Casa Grande veio da Senzala. Como assim?

As casas europeias não tinham alpendre, ou varanda. Até por uma questão de clima. Mas as casas africanas tinham. A Casa Grande se rendeu.

Na ilustração abaixo, vê-se o alpendre de Massangana, casa em que Joaquim Nabuco viveu sua infância e se afeiçoou às pessoas que brincavam com ele, às tinham carinho próximo por ele. Quanta influência não derivou daí para seu impulso abolicionista?


Engenho Massangana, em que Joaquim Nabuco viveu. Cabo de Santo Agostinho – PE.

O Castelo de Chambord, por exemplo, é um castelo renascentista francês, projetado por italianos. Talvez por influência de Leonardo da Vinci continha belos arcos vazados no rés-do-chão. Mas os arcos foram fechados, e a principal razão foi o clima: fazia bastante frio e ventava bastante…


Castelo de Chambord no Vale do Loire.

No Brasil, com um clima mais clemente, era possível ter arcos vazados, alpendres, varandas, com mais tranquilidade. Alberto da Costa e Silva diz que foram os africanos que trouxeram esse costume para cá. A Casa Grande deriva da Senzala.